Entrevista Exclusiva: Cidade Verde Sounds System

“O cara que tá com o microfone na mão tem uma responsabilidade, tem que se preocupar em passar algo de produtivo pra uma sociedade melhor”

A Cidade é verde, o pé é vermelho e o reggae é de qualidade. O pessoal do Cidade Verde Sounds System, oriundo de Maringá, atualmente reside em São Paulo, mas passa mais tempo em aeroportos e em cima do palco levando o som e a atitude das letras pelo Brasil todo. Prestes a lançar o terceiro CD, a banda se apresentou em Maringá. E Adonai, responsável pelos vocais, bateu um papo com o pessoal do Blog do Buda para contar sobre a carreira e as dores e delícias de misturar música de raiz com ativismo social e um contato enriquecedor com os fãs. A gente é quem agradece!

Como foi para vocês começar a fazer música em uma cidade como Maringá?

O cidade verde começou como uma família grande aí em Maringá, muita gente participava, mas quando começamos a gravar já organizamos a formação que está junta até hoje. Hoje a gente está com uma equipe maior, outros músicos que chegaram, acho que a família cresceu, mudou um pouquinho, mas a raiz que estruturou a banda, Adonai, Paulo e Koala, continua a mesma desde a primeira música.

E vocês continuam hoje ligados à Cidade, mesmo morando em uma metrópole como São Paulo?

Bom, a gente é nascido e criado em Maringá, a gente curte demais a cidade, tá todo mundo aí, nossas raízes, nossos amigos, nossa família. É o lugar onde a gente se sente realmente em casa. Nosso nome, nosso jeito de ser, o sotaque maringaense são coisas que não saem (risos). Mas a questão musical acabou nos levando pra outro lugar, a cidade foi ficando pequena pra gente porque já vinhamos fazendo muitos shows na região de São Paulo. Aqui a região em si é muito movimentada, tem São Paulo, Santo André, São Bernardo… um monte de cidadezinha em volta  e tem a facilidade de voos. Daí morar em São Paulo acabou sendo mais fácil pela logística.

Passar esse tempo na estrada, recebendo influências de outros lugares, tem refletido na música de vocês?

Olha, eu acho que a gente tem crescido muito musicalmente sim, não só pela questão da estrada física, de estar na rua viajando, mas pela estrada de tempo de carreira mesmo. A gente tá produzindo o nosso terceiro álbum e nesse caminho aprendeu muito em termos de produção, de criação de arranjos… evoluímos bastante também nas letras, até pela questão da idade que foi passando. A estrada nos trouxe crescimento musical sim, mas não só a estrada no sentido do espaço e sim do tempo que temos passado trabalhando e vivendo com música. Acho que indo assim nós só temos a melhorar, conforme as coisas vão acontecendo.

O novo álbum acabou então seguindo uma linha diferente dos anteriores?

Acho que basicamente tem a mesma essência, a mesma estrutura que temos desde o começo, que é esse lance do reggae com influência também do hip-hop, esse som mais moderno, essa novidade da Jamaica, do reggae mais dançante. A vibe é a mesma, mas a qualidade mesmo da música mudou. Nesse ponto de arranjo e instrumentação a gente evoluiu muito. E com isso veio um disco de muita qualidade.

Você acha que esses sons de contracultura, como o reggae e o hip-hop, tem maior aceitação quando vêm em uma roupagem assim “mais moderna”, como você definiu?

Hoje acho que eu posso dizer isso sim, entramos em mais espaços por agregar esse público, mas na real quando a gente começou era o contrário. Quando surgimos nosso som era muito diferente do que tinha de reggae na época, como Ponto de Equilíbrio, Mato Seco, Tribo de Jah, Natiruts, toda essa galera tinha uma pegada mais anos 70, então quando a gente chegou na pista pela primeira vez o povo estranhou muito, não tinha nada a ver com o que a galera estava acostumada a ouvir. Por isso no começo o Cidade Verde chocou um pouco, mas no fim das contas isso foi positivo sim, foi nessa pegada que a galera sentiu nossa originalidade e a partir daí conseguimos ir pra frente. Hoje em dia você escuta nossas músicas e não tem dúvidas, sabe que é a gente, não se parece com nenhum outro som e acho que se hoje a gente está viajando muito, fazendo muita coisa por aí justamente por ter chegado com uma sonoridade exclusiva nossa.

E você acha que o que vocês fizeram, esse rolê da associação de ritmos, pode ser considerado como uma “tendência” atual?

Eu acho que o Brasil gosta muito disso né, o país tem muito disso, banda de reggae, de rock, de rap, tudo com um monte de mistura. Não só na música, na comida, em tudo quanto é coisa, o brasileiro gosta de misturar muito, então isso aí funciona muito bem aqui. O rap cresceu muito nesse sentido nos últimos anos e isso acabou ajudando a gente também, hoje em dia o rap se fortaleceu e o Cidade Verde acaba entrando nesse circuito também.

É que vocês também trazem as letras muito próximas do rap, por serem mais embativas, questionarem algumas coisas...

Quando eu comecei a compor as primeiras letras acho que minha grande vontade, acima de qualquer coisa, não era viver de música e sim criticar o que estava errado, dar a minha opinião. Acho que o jovem tem que ter essa parada de meter a boca mesmo nas hipocrisias da sociedade. Falando a nível de Maringá, é uma cidade que, por ter características de cidade pequena, acaba tendo muito esse lance de hipocrisia com relação a política, às drogas. Tudo isso eu via aí e na real são problemas a nível de Brasil.

Atualmente vocês se preocupam em manter essa característica de unir música e ativismo?

Não parei até hoje! O nosso disco novo tem muito disso também, de crítica social, de ativismo pela ganja, que é algo que faz parte do nosso cotidiano. Eu não faço nada disso só para chocar, faço porque realmente faz parte do meu cotidiano, do cotidiano da minha geração e eu acho importante falar sobre isso tanto quanto é falar sobre política, sobre problemas sociais.... isso tem que fazer parte do artista porque se a gente não for falar, quem vai? O cara que tá com o microfone na mão tem uma responsabilidade, tem que se preocupar em passar algo de produtivo pra uma sociedade melhor, então por que não fazer isso, né? Não que todas as músicas tenham sempre que ter esse cunho… as vezes você quer falar de outras coisas, de rolê, de praia, de amor, mas acho que esse lance do artista de criticar, de abrir o olho da sociedade não pode faltar nunca.

E abordar esses temas nunca trouxe dificuldades maiores para a carreira de vocês?

É uma faca de dois gumes, sabe? Por um lado você vê certas portas sendo fechadas por ter essa postura, embora ninguém nunca tenha chegado em mim pra dizer explicitamente “Pô Adonai, Cidade Verde não cabe na minha casa porque vocês falam de ganja”, mas isso deve ter acontecido muitas vezes pelas minhas costas. Por outro lado, quando você faz esse tipo de coisa agrega também muita gente que tem o mesmo pensamento… no Brasil hoje mesmo tem muita gente a favor da legalização, de um monte de tema que a gente aborda, acho que as pessoas estão se manifestando mais, então apesar das portas fechadas, sempre se abrem muitas outras. Eu penso que pode ter sim, até hoje, algumas portas fechadas por causa da nossa boca aberta (risos) que fala o que dá na telha mesmo, mas muita coisa boa acontece justamente por isso.

Isso para você é também então uma forma de aproximação, de “unir os iguais”?

É sim, porque eu acho que quando você mete o dedo na ferida, fala do que precisa ser dito e constrói um movimento não só musical, mas social, você agrega o tipo de gente que não tá assistindo tudo o que tá na TV e sendo levado por isso. Quem admira o trabalho de verdade não pode entrar nessa onda de um dia curtir você e no outro trocar por outra banda, por isso quando você é sincero, coloca uma filosofia, um pensamento social ou uma coisa do coração mesmo por trás da sua música, você vai agregar pessoas mais positivas, que não vão só ouvir o seu som, vão aprender com você e construir com você.