5 pessoas negras que fizeram história (e talvez você não saiba)

Na semana em que se comemora o Dia da Consciência Negra, o blog lista abaixo 5 personalidades que fizeram a diferença de alguma forma, mas que poucas pessoas conhecem suas contribuições para a cultura. O Buda pede licença para fugir do óbvio de listar gênios renomados como Cartola, ou Lima Barreto, ou Elza Soares, dentre outros grandes nomes popularmente conhecidos, incluindo personalidades importantes que aposto que muitas pessoas não sabem que eram negras, como Aleijadinho ou os escritores Machado de Assis e Mário de Andrade.

A idéia é fazer uma lista de precursores, aqueles que estavam armados de um facão na mão, foram desbravando a mata pouco explorada e abrindo caminho para artistas negros contemporâneos mostrarem seus talentos. Vamo lá:
 

Miriam Makeba (1932 – 2008)

Conhecida pelo seu apelido “Mama África”, Miriam Makeba foi uma cantora que não tinha só uma voz extraordinária, mas foi uma das responsáveis por popularizar a tradicional música africana no mundo ao levar pro palco as tradições e trajes típicos de sua terra, a África do Sul. Ícone musical, Makeba também foi um figura importante de resistência contra o Apartheid e sempre esteve comprometida com a luta pelos diretos civis. Boicotada na África, ela vazou de lá e fez carreira na Europa e América, retornando ao seu país somente nos anos 1990, recepcionada por ninguém menos que Nelson Mandela. Tem moral ou não? No Brasil, talvez o seu grande hino seja mais conhecido por aquela paródia besta “Tá com Pulga na Cueca”...


James Baldwin (1924 – 1987)

Escritor negro que influenciou autores como Truman Capote e Tom Wolfe, o norte-americano James Baldwin teve uma infância miserável no Harlem, em Nova York. Segundo ele, refugiava-se nos cadernos, tanto que aos 12 anos escreveu a sua primeira novela e vários rascunhos até o seu primeiro livro ser publicado quando tinha 28 anos de idade. Baldwin ganhou reconhecimento da crítica e uma bolsa de estudos na Europa, onde redigiu suas maiores obras/ensaios, a maioria delas concentradas no conflito racial. No ano passado, foi lançado o seminal documentário “Eu Não Sou Seu Negro”, que traz uma reflexão sobre o racismo e a negritude a partir de textos publicados por Baldwin. O melhor de tudo é que este doc está na íntegra e legendado no YouTube. Só dar o play!


Carolina de Jesus (1914 – 1977)

Carolina de Jesus viveu boa parte de sua vida em uma favela na zona norte de São Paulo. Sozinha, sustentou três filhos como catadora de papel. No entanto, Carolina carregava um diário consigo em que relatava a desagradável condição de ser mulher, preta e pobre no Brasil, descrevendo o seu dia a dia cheio de discriminação.

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Ela foi descoberta por um jornalista e teve o seu diário publicado sob o título “Quarto de Despejo”, tornando-se uma das primeiras autoras negras do país, certamente a primeira oriunda da favela a publicar um livro e responsável por revolucionar a linguagem e o aspecto realista dos romances de não-ficção. “Diário de Despejo” ganhou as bancas em 1960 e foi objeto de pesquisa de vários estudiosos no Brasil e no mundo.


Fela Kuti (1938 – 1997)

Assim como a Miriam Makeba ali em cima, o nigeriano Fela Kuti também é um músico/compositor com voz representativa tanto na música quanto na luta pelos direitos humanos. No cenário musical, foi um múltiplo instrumentista e o pioneiro do Afrobeat, que fazia uma mistura de ritmos de jazz, batuques de funk e cantos tradicionais da África. Influenciado pelo movimento Black Power, decidiu usar suas canções com aspecto místico como arma para vociferar suas visões políticas, já que uma de suas principais intenções era falar ao mundo os problemas vividos pelo povo nigeriano. Fela Kuti se casou com 27 mulheres diferentes (!) e morreu de AIDS aos 58 anos de idade. Paul McCartney e Stevie Wonder estão entre os fãs desse artista sensível e fantástico.


Ruth de Souza (1921 – tá vivona)

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Grande Ruth de Souza, a única viva da lista! Essa mulher é absolutamente espetacular, fez história na área da atuação, abrindo caminho para outros intérpretes negros em vez de contratarem atores brancos e fazerem black face – sim, a Rede Globo fez isso na novela “A Cabana do Pai Tomás” (1969). Ruth de Souza foi a primeira atriz negra a subir nos palcos do Theatro Municipal do Rio de Janeiro e participou de mais de 19 espetáculos – incluindo uma adaptação de “Quarto de Despejo”, de Carolina de Jesus (veja acima). Na TV, também fez história, começando na TV Tupi e depois trabalhou por mais de quatro décadas na Rede Globo. No cinema, também brilhou em vários papeis, com destaque para “Sinhá Moça” (1953), que foi selecionado para o Festival de Berlim e Veneza. Ou seja, teatro, TV e cinema... Ruth de Souza é completa!