Dia do Rock: quem vê capa, ouve a canção?

Em tempos de Spotify, a indústria fonográfica precisou se adaptar e a contabilidade não é mais feita baseada na quantidade de álbuns vendidos, até porque o CD físico é um artigo cada vez mais raro, requisitado geralmente só pelos colecionadores.

Por essa razão, nesse Dia Mundial do Rock, o Buda te convida a conhecer 10 capas de álbuns históricas do Rock n’ Roll. No entanto, já adiantamos que não vai ter o quarteto atravessando a Abbey Road, Dark Side of the Moon, a banana do Andy Warhol, nem o bebê imerso na piscina atrás de 1 dólar. Essas capas são icônicas, sem dúvidas, mas a ideia dessa postagem é selecionar 10 capas igualmente boas – seja pelo significado, pelo valor artístico, enfim – e que não tiveram o devido reconhecimento por algum motivo.

Bora? Então bora.

 

#10 EVIL EMPIRE (1996) - Rage Against the Machine

Quem conhece o cunho político do RATM, das mais importantes bandas dos anos 1990, detecta com rapidez a ironia de “Evil Empire”, trazendo um Ronald Reagan – presidente norte-americano republicano – em versão teenager como herói de uma nação que estacionou no tempo. Para realçar a provocação, as cores do álbum são quentes e a arte comunica um tom infantil e inconsequente, bem como os Estados Unidos e o seu governo imperialista.

 

#9 THE STONE ROSES (1989) - The Stone Roses

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Álbum de estreia do Stone Roses, a arte foi criada pelo guitarrista da banda, John Squire, e foi inspirada nas obras do artista Jackson Pollock, um dos baluartes do movimento expressionista abstrato. Exibindo uma forte veia política, notamos em primeiro plano o nome da banda em verde militar – não à toa –, cores da bandeira da França em alusão à revolta de Maio de 1968 e alguns limões jogados, antídoto que os manifestantes usavam para aliviar o gás lacrimogêneo usado pela polícia francesa. Além da arte bacana, é preciso reconhecer que esse debut do Stone Roses é foda, modelou o britpop e deu a receita para Oasis e Blur brilharem nos anos seguintes.

 

#8 MCMLXXXIV (1984) - Van Halen

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Esse gerou polêmica. A classe religiosa não aceitou bem a capa de um dos discos mais famosos do Van Halen, o MCMLXXXIV (1984 em algoritmos romanos). Um anjinho carbonizando os pulmões com dois maços de cigarro sobre a mesa foi um pouco chocante para o quadrado anos 80 e foi censurado em alguns países. Além disso, dá para ver a feição de mágoa e tristeza da criança, que torce o pescoço e olha algo com reprovação. A ilustração foi desenvolvida pela artista Margo Z. Nahas, que foi rechaçada pelos mais conservadores na época do lançamento.

 

#7 MEAT IS MURDER (1985) - The Smiths

Fuzileiro naval na Guerra do Vietnã, o nome do rapaz da imagem acima é Michael Wynn. A fotografia original, tirada em 1967, trazia os seguintes dizeres no capacete do soldado: “Faça guerra, não faça amor”. Essa imagem foi vista pela primeira vez em um documentário intitulado “In the Year of the Pig”, lançado em 68. Mais de 15 anos depois, os Smiths aproveitou a foto e fez uma pequena edição, substituindo a frase original pelo título do álbum (“Carne é assassinato”), o segundo de estúdio da banda, do qual saiu o hino atemporal “How Soon is Now”.

 

#6 ABSOLUTION (2003) - Muse

Essa capa é uma pira! E a composição é absolutamente sensacional, aberta a várias interpretações. A gente não sabe se as pessoas que estão projetando suas sombras estão em uma missão nuclear – observem a sombra da máscara do homem no chão – ou se alguma merda deu errado e estão fazendo suicídio coletivo. O título do álbum traduzido é “absolvição”, então talvez esse seja um ritual fúnebre ou então sendo inocentadas por algo... enfim, não sabemos, a única certeza é que se trata de uma imagem bastante provocante e que saiu da mente criativa do artista Storm Thorgerson, que ostenta no portfólio a identidade visual para álbuns do Pink Floyd, como aquele triângulo que entra uma luz branca e sai um feixe colorido, sabem? Só isso.

 

#5 WASHING MACHINE (1995) - Sonic Youth

Longe de ser o melhor álbum em termos de músicas da conceitual banda Sonic Youth, mas os caras são tão incríveis, tão gênios, que colocaram um fundo azul royal, um clipart de uma máquina de lavar direto do Google Imagens e apenas fizeram história.

 

#4 GOODBYE YELLOW BRICK ROAD (1973) - Elton John

Assinado pelo ilustrador britânico Ian Beck, o desenho que estampa a capa do álbum “Goodbye Yellow Brick Road”, de Elton John, é uma obra de arte. Com notável referência a “O Mágico de Oz”, essa capa é tão significativa e curiosa e corajosa por vários motivos. A representação de alguém fodido se despedindo da estrada de tijolos amarelos, entrando numa parede mal acabada com tijolos à mostra ao fundo, e em segundo plano, fábricas soltando fumaça... é tipo o paraíso que não existe, somente em nossa imaginação, bem como n a história protagonizada pela inocente Dorothy, que usa sapatinhos vermelhos, como o desenho do cantor. Parecem simples informações, mas usando “O Mágico de Oz” como bússola há muitas “pistas” para articular nessa capa e construir uma narrativa consistente.

 

#3 THE MAN MANCHINE (1978) - Kraftwerk

Essa arte é poderosa. É simples, mas tão completa e cheia de significados. Uma tomada impressionante com ar construtivista de Lissitzky e Rodchenko, a ilustra do sétimo álbum do Kraftwerk traz o quarteto em posição de obediência, trajando vermelho e olhando para a mesma direção, uma menção clara ao poder da ditadura, seja ela nazista – lembrando que a banda é alemã – ou comunista, toda forma de autoridade deve ser combatido. Outro ponto estranhíssimo e que chama a atenção é o título do disco estar escrito em outros três idiomas.

 

#2 PHYSICAL GRAFFITI (1975) - Led Zeppelin

“Physical Graffiti”, do Zeppelin de Chumbo, deve ser a capa de álbum favorita do cineasta Wes Anderson por conta da simetria e da perfeição. Esse edifício charmoso existe mesmo e faz parte da paisagem urbana de Nova York. Essa imagem  registrada pelo designer Peter Corriston merece ser bem analisada por ter algumas variações e detalhes interessantes. Por exemplo, lembra outro prédio, o Dakota, onde John Lennon foi assassinado; esse mesmo edifício também foi palco para um dos videoclipes dos Rolling Stones; ele aparece em uma cena do icônico filme “Taxi Driver”, de Martin Scorsese, lançado no mesmo ano do disco, entre outras histórias que rondam o local. É bastante curioso o Jimmy Page sentado ali na escadaria, e ainda, se lermos o título do disco em outras direções, podemos fazer um jogo de palavras, como “PIG” (porco) grafado na vertical, etc. Não que “Physical Graffiti” não seja uma capa conhecida no mundo do rock, mas diante de tantas outras do Led Zeppelin, essa parece ter se perdido e é tão admirável quanto as outras.

 

#1 TODOS OS OLHOS (1973) - Tom Zé

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Em toda a história da música, somente Tom Zé conseguiu burlar a censura e estampar um ânus na capa de um álbum. Ok que a imagem é ambígua e parece mesmo uma bola de gude em um olho humano ou uma boca. Mas se você olhar direito, bem de perto rs, analisar as paredes laterais, é muito claro de que se trata de um orifício anal com uma “burquinha”. E o mais louco é o título do álbum, Todos os Olhos, inclusive o do cu hahaha. Tom Zé driblou a censura e fez várias pessoas bugarem com essa imagem, assinada pela dupla Chico Andrade e Decio Pignatari.