Dylan, Sinatra e o homem fora de seu tempo.

No início dos anos 1960, quando Bob Dylan abandonou Minnesota e chegou com uma mão na frente e outra atrás em Greenwich Village, onde a música folk embalava os bares e cafés da região, apreciar abertamente as canções afinadas e impecavelmente produzidas de Frank Sinatra era uma heresia para os músicos que lutavam por uma sonoridade mais simples. Era o tradicional versus a novidade, o rebuscado versus o popular, o careta versus a rebeldia dos jovens. 

Não sei se naquela época, enquanto jovem, Dylan deixava explícito na roda a sua estima por Sinatra, mas, anos depois, o encheu de elogios em sua autobiografia, “Chronicles – Volume One”, chegando a declarar que quando escutava alguma de suas composições, “ouvia a morte, Deus e o universo”. Eis que aos 73 anos, resolve lançar um disco de homenagem com 10 covers do lendário cantor. 

“Shadows in the Night”, seu 36º álbum de estúdio, alcançou o topo das paradas britânicas na semana de seu lançamento, confirmando a aprovação do público para a versão austera e melancólica de Dylan para canções conhecidas pelo seu esplendor.

  Capa do álbum “Shadows in the Night”, uma homenagem a Frank Sinatra

Capa do álbum “Shadows in the Night”, uma homenagem a Frank Sinatra

Ao comparar o alcance vocal desses dois cânones da música do século XX precisamos reconhecer um pequeno “detalhe”: Sinatra tem muito mais potência na voz do que Dylan. Isso não está nem aberto para discussão. Essa era a principal preocupação dos fãs quando o disco em tributo foi anunciado, mas após escutá-lo, ficou claro que todos – eu, incluso – só estava procurando cabelo em ovo. Dylan exclui a pompa que acompanhava “Frankie”, reduzindo tudo ao seu universo único de sombras, com sua voz rústica e fanha (anasalada, alguns defendem haha) que é muito boa de se ouvir. 

Diferentemente dos originais, que sempre vinham acompanhados com uma orquestra monumental, a amargura inofensiva do homem vivido e cheio de cicatrizes presente nos últimos álbuns do cantor dita o ritmo de “Shadows in the Night”. Sem soar necessariamente pessimista, a releitura de Dylan evoca uma sensação de não-pertencimento, do indivíduo que não lhe resta alternativa a não ser esperar pela morte. É obscuro, pesado, mas também um tanto discreto e charmoso. 

Confira abaixo o videoclipe da música “The Night We Called It a Day”, divulgado recentemente e baseado nos clássicos filmes noir de Hollywood, que Sinatra, o próprio, protagonizou alguns títulos nos anos 1940.