“Bendito seja o fruto”: a merecida consagração de ‘The Handmaid’s Tale’ no Emmy

Com a trégua de “Game of Thrones”, a principal categoria do Emmy 2017, Melhor Série – Drama, estava sem favoritismo. Sério, qualquer um tinha chances de ganhar, considerando que nenhum dos indicados havia levado o cobiçado troféu antes. Também pudera, tirando os queridinhos “Better Call Saul” e “House of Cards”, as outras cinco séries indicadas na categoria eram novidade, estavam em sua primeira temporada. Diante desse cenário imprevisível, repito: qualquer um poderia ganhar. Até imagino que os votos ficaram bem divididos, mas no fim das contas, felizmente a melhor da seleção foi consagrada. Aliás, se você aí tá com o mestrado até o pescoço, tá afogado em freelas, o tempo está escasso e se precisam escolher somente uma série pra assistir (e acompanhar), o Buda indica: The Handmaid’s Tale.

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A série é baseada no romance “O Conto da Aia”, lançado em 1985 e escrito pela canadense Margaret Atwood. A história se passa num futuro distópico não muito distante em que a sociedade foi segregada em castas de acordo com o papel que você desempenha no mundo, ou melhor, que Deus escolheu para você desempenhar no mundo, a sua missão. As aias (ou as “handmaids” do título) são servas de casais ricos cujas esposas são inférteis, e aí entra a “missão” dessas mulheres de terem relação sexual com o homem da casa e gerarem o fruto para honrar aquele lar. Sem nenhum envolvimento afetivo, é somente isso o que elas fazem: são barrigas de aluguel. Feito o trabalho em uma família, elas são encaminhadas a outra. Junto a toda essa perversão, vem um combo de fanatismo religioso e abusos emocionais que dão o tom e surge como um grito de socorro.

O mais assustador, sobretudo, é perceber que esse pesadelo profético idealizado por Atwood nos anos 1980 não está muito distante de se concretizar no plano real. Basta entrar em qualquer portal de notícias e a gente vê como o mundo está virado do avesso, com o judiciário liberando homens que abusam de mulheres em transporte público, ou considerando como “medida corretiva” um pai que espanca a filha porque esta perdeu a virgindade, ou ainda a tal da “cura gay”, de que homossexualidade é doença e psicólogos podem fazer reorientação sexual. É bizarro e tudo isso, de uma forma ou outra, curiosamente está refletido em “The Handmaid’s Tale”, toda essa muralha de conservadorismo que estamos tombando é o motor da série, é o pano de fundo para que a história particular de cada personagem se desenvolva.

Não só pela excelência dessa primeira temporada, acredito também que o reconhecimento de “The Handmaid’s Tale” no Emmy tenha sido bastante político – foram 8 troféus –, uma forma de colocar em perspectiva os rumos sombrios que estamos tomando. A série foi oferecida a princípio para a Netflix, que a recusou e deve estar muito arrependida da decisão; hoje é exibida pelo canal Hulu, que não tem no Brasil, mas por conta do sucesso foi comprada e será transmitida por aqui pela Paramount Channel. A previsão é para outubro. Já a segunda temporada está em processo de gravação e estréia no ano que vem.  É imperdível.