Idles: dor, paixão e agressividade

Os britânicos da banda Idles, de Bristol, provaram com dois EPs, dois discos cheios e sete anos de carreira que a sinceridade, a dor, a compaixão e a tristeza são combustíveis para uma música punk e visceral.

Idles - Foto Ebru Yildiz2.jpg

Joe Talbot (vocal), Adam Devonshire (baixo), Mark Bowen (guitarra), Lee Kiernan (guitarra) e Jon Beavis (bateria) tocam agressivamente sobre depressão, raiva, migração, masculinidade tóxica, política, união e dor. “Eu não estou pedindo para as pessoas se rebelarem, estou falando sobre transformar uma parede de morte em uma parede de abraços”, diz Talbot, para revista Vice UK.

Parte da vida do vocalista e compositor Joe Talbot pode explicar o caminho que levou o quinteto a chegar a esse estilo. Quando ele tinha 16 anos, sua mãe sofreu um AVC que paralisou praticamente todo o corpo. A partir de então, Talbot virou seu cuidador, até alguns dias antes do lançamento do primeiro disco da Idles, “Brutalism” (2017), quando ela faleceu. A banda começou a turnê de lançamento e Talbot já enfrentava problemas com o vício.

Idles - Foto Ebru Yildiz.jpg

Na mesma entrevista para a revista britânica, o vocalista explicou que, enquanto ensaiava com a banda, assistia a felicidade da mãe ir embora, enquanto morria aos poucos. “Eu não conseguia esconder o quão assustado eu estava, então eu bebia cada vez mais e usava cada vez mais drogas e isso se tornou um espiral em que eu tentava esquecer qualquer realidade”, declara o vocalista, atualmente sóbrio.

Talbot acredita que a vida da mãe foi ainda mais curta devida aos cortes do NHS (National Health Service), sistema nacional de saúde da Inglaterra. Por isso a música “Divide and Conquer

Huh?

Divide and conquer

A loved one perished at the hands of the baron hearted right.

Divide and conquer.

Assim como são vulneráveis e visceralmente honestos em suas músicas, os integrantes da Idles aparentam ser também durante entrevistas e shows, em que constantemente se abraçam e se beijam. “Eu acho que a vulnerabilidade é a chave para abrir a porta. Queremos transmitir algo que encoraje as pessoas a serem assim com a gente, para que possamos passar por momentos que é uma merda para todos nós, por diferentes razões”, relata Talbot.

Emprestando as palavras do microconto de Hernest Hemingway, “Vende-se: sapatos de bebê, nunca usados”, Talbot escreveu sobre mais uma paulada que a vida lhe deu, em junho de 2017. Em “June”, ele fala sobre a morte da filha que morre durante o parto.

Dreams can be so cruel sometimes

I swear I kissed your crying eyes

A still born still born

I am a father

I'll mend

Baby’s shoes

For sale

Never worn

Em “Samaritans”, Talbot aborda a masculinidade tóxica.

I'm a real boy Boy and I cry

I love myself

And I want to try

This is why you never see your father cry

I kissed a boy and I liked it

Em uma das melhores músicas do álbum “Joy as an Act of Resistance” (2018), a banda canta a favor da imigração e dos refugiados: Danny Nedelko. Em entrevista à revista Rolling Stone, Talbot declarou: “O progresso na sociedade civilizada vem de celebrar as diferenças e nunca de construir muros. É sobre construir pontes.”

My blood brother is an immigrant

A beautiful immigrant

My blood brother's Freddie Mercury

A Nigerian mother of three

He's made of bones, he's made of blood

He's made of flesh, he's made of love

He's made of you, he's made of me

Unity

Paixão, compaixão e agressividade são ingredientes para fazer da diversão um ato de resistência a qualquer coisa ou pessoa que não celebre as diferenças e o amor entre elas.