Jazz, Flora e Airto

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Em 2016, tive a honra de entrevistar Naná Vasconcelos, um dos melhores percussionistas do mundo. Brasileiro, claro. Na ocasião, o pernambucano me contou sobre um dos segredos do começo da carreira, iniciada na Argentina, EUA e Europa: “Eu nunca quis ser eles. Entendi que, como brasileiro, eu tinha alguma coisa que eles não tinham.”

De fato, ele e diversos outros brasileiros têm alguma coisa que nenhum outro músico do mundo tem. A nacionalidade brasileira. Não à toa, desde o fim da década de 1950, quando João Gilberto dedilhou os primeiros acordes da Bossa Nova, diversos músicos daqui escreveram parte importante no jazz norte-americano. É sobre essa influência tupiniquim que eu escrevi na última edição da revista da Noize Recod Club, que acompanha o lançamento em vinil de “No Voo do Urubu” (2016), do mestre Arthur Verocai.

Entre os grandes nomes dessa invasão brasileira no jazz gringo estão: Dom Um Romão, João Donato, Luiz Bonfá, Sergio Mendes, Hermeto Pascoal, Tom Jobim, Milton Nascimento, Elis Regina, Dom Salvador, Airto Moreira, Flora Purim, grupo Tamba 4, Marcos Valle e muitos outros.

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O casal Airto Moreira e Flora Purim não só escreve até hoje uma trajetória de sucesso, conciliando o ideal “jeitinho brasileiro” com o jazz, o jazz fusion, funk e diversos outros gêneros, como também é responsável pela introdução de outros conterrâneos nesse cenário. No primeiro disco solo do percussionista Airto Morreira, Natural Feelings (1970), dois gênios albinos da música brasileira participaram da gravação: Hermeto Pascoal e Sivuca.

Os brasileiros Flora Purim (vocal), Airto (percussão, vocal e bateria), Hermeto (piano, flauta, órgão e harpischord) e Sivuca (violão) gravaram o álbum ao lado de Ron Carter (baixo), da banda de Miles Davis. O resultado foi um disco cheio de experimentalismo e muitas influências da terra tupiniquim.

Airto já morava lá com a esposa, Flora, desde 1967. Catarinense, o percussionista tocou com Cannonball Adderley, Paul Desmond e Joe Zawinul antes de integrar a banda de Miles Davis. O primeiro álbum gravado ao lado do trompetista foi o histórico Bitches Brew (1970), conhecido por ser o álbum da mudança de sonoridade do artista. A presença de um brasileiro não deve ser mera coincidência.

Durante dois anos na banda, Airto dividiu palcos com Wayne Shorter, Dave Holland, Jack DeJohnette, Chick Corea, John McLaughlin e Keith Jarrett. Gravou, entre outros, os discos de Miles Davis Live at the Fillmore (1970), Bitches Brew Live – The Isle of Wight (1970), On the Corner (1972), além de Live-Evil (1971). Também integrou o clássico grupo de jazz fusion Weather Report no qual Dom Um Romão seria o percussionista substituto de 1971 a 1974.

As gravações de Live-Evil têm uma curiosa história, envolvendo o trompetista norte-americano e o brasileiro Hermeto Pascoal, peça importante do disco. Na prensagem original do disco, as canções "Selim", “Nem Um Talvez” e “Little Church (Igrejinha)”, de Hermeto, não foram creditadas ao alagoano, fato que gerou brigas judiciais durante anos e, segundo Flora Purim e Airto Moreira já disseram em entrevistas, essa disputa envolveu a colaboração de Herbie Hancock e Wayne Shorter em prol do lado brasileiro. Hoje, o próprio Hermeto diz que nenhuma música foi roubada.

Flora, por sua vez, estreou no palco e no estúdio com um norte-americano, Duke Pearson. A cantora teve importante participação, ao lado de Airto, na fase fusion do guitarrista Carlos Santana e tocou ao lado de Chick Corea, Stanley Clarke e Joe Farrel na banda Return to Forever. Com o grupo, gravou Return to Forever (1972) e Light as a Feather (1973).

Segundo a cantora revela em seu site oficial, Chick Corea havia mostrado algumas gravações de jams realizadas com Miles Davis para Ella Fitzgerald e Sarah Vaughan, mas nenhuma delas quis abandonar o bebop e embarcar no jazz mais experimental, no jazz fusion. Flora comprou a ideia. Depois do período com o Return to Forever, lançou seu primeiro disco solo, Butterfly Dreams (1973).

Produzido por Orrin Keepnews, o disco de estreia da brasileira em solo americano foi arranjado por ela e nada mais nada menos que George Duke e Stanley Clarke. Os dois também gravaram junto com David Amaro, Joe Henderson e alguns outros. Flora foi eleita por quatro vezes a melhor cantora de jazz pela revista americana Down Beat, importante publicação dedicada ao jazz desde 1935.

Airto revolucionou a percussão do jazz norte-americano e participou de centenas de gravações, tanto com brasileiros, quanto com nomes internacionais. Tão importante quanto ele, está o percussionista pernambucano Naná Vasconcelos, eleito por oito vezes o melhor percussionista do mundo pela Down Beat. “Eu e Airto introduzimos a percussão no jazz, que não tinha. Tinha o latin jazz. Quando nós, brasileiros, entramos na roda, bagunçou todo o coreto. Era pinico, caçarola, apito, grito... Isso mudou. Todo mundo queria os 'brazilian boys’”, relatou Naná, durante entrevista ao Diário de Perambuco.

A música brasileira continua viajando aos EUA e todo canto do planeta, inclusive com o jazz, gênero com pouca divulgação nacional atualmente. Mas ainda temos bons exemplos, como o pernambucano Amaro Freitas, que, assim como o conterrâneo Moacir Santos, leva gingado do baião, do frevo e dos demais ritmos nordestinos para o gênero norte-americano. 

Essa capacidade de mudar tudo com o que lida e com quem se relaciona é característica do brasileiro. Não só por ter o famoso “jeitinho” (neste caso, boa qualidade), mas por encarar tudo de maneira apaixonadamente única. E louca talvez. Naná dizer que encara a música como religião, Airto dizer que música é vida e Donato transferir à música a capacidade de vida e felicidade são pequenos exemplos disso. O resto é muita personalidade, e um tempero brasileiro de genialidade.




Rafael DonadioComment