Entrevista Exclusiva: Macaco Bong

O final de semana maringaense foi marcado pela presença do Macaco Bong no primeiro Rock And Honda Sessions, que contou também com o som pé-vermelho do Stolen Byrds. O estilo do Macaco é, no mínimo, surpreendente dentro do que já vimos por aqui. Os rapazes apostam no instrumental contemporâneo que veio da batida afro e caiu no rock com vontade.

O terceiro álbum, Macumba Afrocimética, com nova formação da banda, acabou de sair e está sendo divulgado nessa tour, que colocou Maringá no roteiro. Em uma entrevista exclusiva para o Blog do Buda, o músico e produtor Bruno Kayapy, contou sobre o trabalho da banda e ainda teve tempo para nos dar uma aula de música, percepção, ciência e física também porque afinal, por que não, não é mesmo? A gente ouviu, aprendeu e trouxe aqui.

Como é apostar no instrumental? Parece mais complexo passar uma mensagem...

Eu acho que isso vai da relação que cada um tem com a música. A questão de ter vocal ou não depende da forma como o ouvinte interpreta a melodia. No caso, Macaco Bong é uma banda que tem a guitarra como “voz principal”, entende? Apostar no instrumental é buscar essa coisa do “frescor” da música, priorizar uma questão orgânica, trabalhando com modelos não-convencionais.

Mas o que é o “convencional”? O vocal?

Não necessariamente, mas falo isso de acordo com o padrão que a gente tem na música mesmo. Geralmente tem aquela voz principal, seguida do solo e depois o refrão. No nosso instrumental a gente não costuma compor refrões e isso já é fugir bastante dessa “zona de conforto” da música.

Entendi, então é como se vocês desconstruíssem todo o formato que a música tem atualmente? Fazendo algo totalmente novo?

É, acho que a música instrumental é mais experimental. Busca dialogar com a pessoa explorando novos caminhos tem como característica muito da música instrumental essa coisa de experimentar novas estéticas, acho que quando se trabalha com a letra ela é o grande barato da música e na instrumental, como não tem isso, a gente tem algo de precisar sempre mudar…

O Macaco Bong deixa essa mudança muito clara de um álbum para o outro, né?

Sim, a gente vai mudando bastante. No nosso primeiro trabalho, o Artista Igual Pedreiro, a gente apostou bastante no rock’n roll mesmo, é uma linha mais hardcore. Depois veio o This Is Rolê, com uma sonoridade mais forte, pesada, ao mesmo tempo em que a gente parece trabalhar com um pouco de refrão, melodias marcantes que aparecem ao longo do disco em várias músicas diferentes.

E como essa mudança tem impacto no público?

O público gosta bastante dos dois álbuns. Isso é bem legal porque existe uma fatia de pessoas que gosta mais do primeiro e outra que gosta mais do segundo porque preferem essa coisa mais pesada, outros são mais ligados ao primeiro, que é mais jazz, mas em nenhum momento deixamos de ser Macaco Bong. No terceiro eu já busquei fugir dessas duas coisas, fazer algo diferente em relação aos trabalhos anteriores.

O Macumba Afrocimética me pareceu mais suave, de uma certa forma.

É, a gente trabalha com dois contra-baixos e um deles é tocado como se fosse uma guitarra, com distorção e tudo mais. E aí, como nós temos dois instrumentos que já são graves, é complicado você encher as músicas de informação, com a guitarra muito pesada, por isso é natural que ela dê uma suavizada mesmo, na textura do som.

Uma coisa que eu notei é que há voz em uma única música desse álbum, que é justamente a que dá nome ao trabalho, não é?

Foi sim. Essa voz é uma fala de um físico americano que tem uma teoria chamada Cimetic Soundscapes. Estuda a teoria de ondas sonoras que, através de alguns elementos, misturados com a vibração do som, podem se transformar em imagens. Então basicamente a teoria é de que o som pode ser visível também. A música é realmente marcante no disco e acho que essa voz veio para dizer algumas coisas que, realmente, o som está dizendo junto. O nome “afrocimético” é uma palavra que eu inventei mesmo (risos). A parte do Afro muito mais pela questão de que agora existe uma relação maior, eu acredito, com a World Music. Apesar de eu apostar em um outro tipo de textura para o som, as linhas de guitarra, as linhas musicais foram muito criadas com inspiração do formato da música afro…

Que é?

Essa coisa de ritmos mântricos, melodias de corda… O álbum traz um pouco disso, que é uma coisa muito Macaco Bong, algo que está na raiz da banda, mas que pela primeira vez está marcada no som. A partir do momento que a gente começa a usar os instrumentos eletrônicos, sair ainda mais daquele formato tradicional que a gente já tinha, fomos para um lance mais orgânico, mais voltado para as origens da música.

E como foi essa produção?

Eu fui compondo as músicas no contra-baixo mesmo, nem fui compondo com a guitarra. Tudo dentro do estúdio, tudo muito natural, livre. A gente entrou no estúdio, foi tocando, experimentando e chegamos ao que a gente acredita ser o melhor resultado possível.

 Deyalhe da capa do Álbum Macumba Afrocimética

Deyalhe da capa do Álbum Macumba Afrocimética

Esse também é o primeiro material com nova formação da banda, né? Com você, o Igor Jaú e o Eder Uchôa?

Sim, foi o primeiro disco que eu assinei todo como produtor e eu entendi que o meu papel nisso era justamente deixar os meninos a vontade. Eu queria que eles não se sentissem pressionados pelo trabalho que foi feito antes, pelos outros membros da banda, como se fosse para continuar uma coisa que outros caras faziam. Geralmente quem entra em uma banda tem isso, de respeitar tudo como foi feito antes, mas eu quis justamente que isso não acontecesse, fui trabalhando com eles de uma forma que eles pudessem ficar cada vez mais a vontade dentro do estúdio, isso contribuiu muito para o resultado final. Eles davam opiniões sinceras sobre o que realmente achavam legal, sobre o que achavam paia então a gente fez várias versões do disco antes de chegar nesse resultado porque eu queria que eles criassem, que eles somassem à banda.