Resenha: Moonlight – Sob a Luz do Luar

É curioso e admirável a Academia de Hollywood se despir das próprias convenções e resolver premiar um filme tímido e poderoso como “Moonlight”. Ouso em dizer que há 10 anos, uma produção como essa sequer teria espaço entre os indicados na categoria Melhor Filme, mas é notável que os votantes do Oscar, acompanhando o frescor criativo que o cinema independente injeta anualmente na indústria, se mostram cada vez mais interessados no que esses cineastas relativamente desconhecidos e de cunho autoral têm a dizer. Nem só de blockbusters vive o cinemão hollywoodiano, oras.

Nessa temporada de prêmios, os olhos de todos se voltaram para o jovem Barry Jenkins, 36 anos. Com vários curtas-metragens no currículo e somente um longa – sequer foi exibido no Brasil –, “Moonlight” é o seu segundo filme e já o carimba como um dos diretores mais interessantes para se acompanhar em atividade nos Estados Unidos. Com clara influência do chinês Wong Kar-Wai e lampejos inventivos da francesa Claire Denis, Jenkins importa tanto sentimento e poesia à forma que narra suas histórias que é impossível se sentir indiferente. É brilhante o tato da direção em transformar uma narrativa comum em uma grande história de autodescoberta, manter-se coerente do início ao fim e ainda encontrar brechas para incluir passagens elegantes, reflexivas, sinestésicas. “Moonlight” é cinema de observação, é cinema de olhares.

Aliado à direção, temos um enredo enxuto e fabuloso, não à toa vencedor da estatueta de Melhor Roteiro Adaptado. “Moonlight” acompanha três fases da vida de Chiron, um garoto negro e morador da periferia de Miami que precisa conviver com diversas adversidades: na infância, o bullying crescente e a solidão; na adolescência, os maus tratos da mãe viciada em drogas; na fase adulta, a tentação de não cair no submundo do tráfico. Uma história banal, cotidiana, que se não tivesse a abordagem especial que recebeu, seria um filme que provavelmente passaria despercebido.

E chegamos ao elenco. Falar do elenco de “Moonlight” é covardia porque cada atuação desse filme merecia um texto à parte, tamanho o cuidado dos atores em compor seus personagens. Impressiona a sintonia dos três intérpretes do protagonista na forma como cada um captou bem e internalizou as angústias do rapaz. Mais difícil do que colocar pra fora, explodir, é internalizar alguma dor que nem é sua e se manter convincente. Além desses exímios atores, é necessário destacar o elenco coadjuvante composto por Mahershala Ali (vencedor do Oscar) por um papel extraordinário; a jovem Naomi Harris, mais conhecida pelos filmes do agente James Bond, na pele da mãe cracuda que exibe um estranho jeito de demonstrar afeto pelo filho; e o ótimo Andre Holland, contraponto necessário no terceiro ato da trama.

Com seu olhar poético e sensível – dois atributos raros no cinema cada vez mais expositivo de hoje em dia – “Moonlight” coloca seu personagem central em perspectiva e oferece uma jornada intimista que comove pela honestidade. É um dos filmes mais bonitos que você verá neste ano, pode anotar.