Você tem estômago para encarar “Mãe!”?

O novo filme de Darren Aronofsky, mesmo realizador de algumas obras lindas e insanas como “Réquiem para um Sonho” (2000) e “Cisne Negro” (2011), finalmente chegou aos cinemas brasileiros. Depois de uma pequena trajetória em festivais e um desempenho considerado morno nas bilheterias, o terror psicológico “Mãe!” agora está testando a nossa capacidade de resistência para conseguir chegar até o final do filme, porque olha, vou te falar que não é fácil.

Mas não me entenda mal. “Mãe!” não é ruim, está longe de ser uma produção ruim, mas é uma experiência nada agradável, é agonizante e perturbador do início ao fim. A trama acompanha um casal que mora em uma casa de campo e que começa a receber visitas de pessoas desconhecidas que se dizem fãs do trabalho do homem da casa, um poeta com bloqueio criativo. Para amaciar o seu ego, ele permite que essas pessoas entram e passem algumas noites sob o mesmo teto que ele e da esposa, que não entende nada e só apoia as decisões do marido.

Lendo assim, a sinopse está bem longe de representar o pesadelo que é “Mãe!”, porém, tenha certeza de que você está diante de um filme nada ortodoxo e completamente alucinado que vai fazer você ou ficar extasiado com a recriação do inferno na terra com assinatura de Aronofsky ou extremamente de cara com a pretensão e megalomania de um cineasta que quer falar muito e, na verdade, só fala o óbvio. A única coisa que se tem certeza é que não dá para ficar indiferente a este filme. Não dá.

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Qual o veredicto do Buda?

“Mãe!” é um filme carregado de simbolismos. Cada personagem e cada objeto mostrado em cena não são em vão e representam alguma metáfora. É bem claro que este não é uma trama com os pés no realismo, é uma alusão. Mas alusão a quê? Aí é interessante observar as diferentes interpretações que a história permite, passando pela conotação religiosa, pela crítica social e os papeis do homem e da mulher, o contexto da natureza, seu criador e o fruto sagrado... Enfim, é muito bacana quando um filme não se fecha nele mesmo e abre espaço para leituras diversas. Cada um faz a sua de acordo com a sua vivência, com seu conhecimento.

E embora o filme seja muito bem filmado e a parte técnica (som e montagem, sobretudo) seja impecável, a apoteose de certas cenas não são lá muito boas, não. Aronofsky parece que não sabe muito bem a hora de parar, põe na quinta marcha, corta os fios do freio e vai numa ladeira rumo ao inferno sem fazer nenhum tipo de concessão. O resultado é meio exagerado, é querer abraçar o mundo tendo os braços muito pequenos; isso sem falar que há momentos que ele deve ter pensado “acho que ninguém tá entendendo porra nenhuma” e faz o favor de mastigar o filme, que, até então, mantinha-se uma aura ousada e interessante – apesar dos excessos.

No fim das contas, “Mãe!” é bom e Jennifer Lawrence carrega muito bem tudo nas costas. Só sofre essa coitada, mas pelo menos sofre bonito.