Mulheres que tocaram no Psicodália 2019 e você precisa conhecer

Já fui para o Psicodália nove vezes. A primeira foi em 2006 ou 2007, nem eu lembro o ano exato. Aquelas primeiras edições ainda eram realizadas em uma espécie de hotel fazenda em São Martinho (SC), mas há dez anos o festival mudou de espaço, para comportar o número de pessoas, que só aumentava. A partir de 2010, a organização do festival ergue uma verdadeira cidade na Fazenda Evaristo, em Rio Negrinho (SC), e esse mundo paralelo abriga cerca de 6000 pessoas em cinco “bairros”: os campings Casa das Máquinas, Terreno Baldio, Secos & Molhados, Mutantes e Tutti Frutti. Ali tem mercearia, cozinha comunitária, restaurantes, banheiro com diversos chuveiros, feiras, bazares, bares, teatro, cinema, espaços para oficinas, lago e muita natureza.

São quatro palcos, que recebem 50 shows por edição: o Palco do Lago, que abriga os shows matutinos, o Palco do Sol, que abriga os shows da tarde e se transforma em Palco dos Guerreiros para os shows que varam a madrugada, e o Palco Lunar. A presença feminina vem aumentando cada vez mais, e não é só em cima do palco. Elas também tomam conta da limpeza, do Biodália – gestão ambiental que trabalha com banheiro seco, composteiras e lixo zero – produção, segurança, técnica, alimentação, backstage e do público.

Este ano, a 22ª edição do Psicodália trouxe musicistas que dispensam apresentações: Mulamba, Letrux, Anelis Assumpção, Lucinha Turnbull, Xenia França, Dona Onete e Elza Soares são alguns nomes.

Mas outros nomes, ainda não muito reconhecidos na mídia, surpreenderam todos os habitantes psicodálicos. Listo aqui algumas que tive o prazer de assistir e entrevistar.



GALI

Gali Psicodália - Foto André Donadio (1).jpg

Gali foi a primeira. Enquanto vivemos uma possibilidade de novo mundo, um verdadeiro acontecimento/ experiência/ utopia, pessoas se descobrem e artistas se transformam. Depois de alguns anos se apresentando como Camila Garófalo, a compositora, cantora e instrumentista paulista agora se encontra na personagem Gali, que carrega as raízes do interior, de Ribeirão Preto (SP). Nem mulher, nem homem, nem bicho, esse novo personagem canta a temática da mulher lésbica e da desconstrução da questão de identidade de gênero. Entende que as raízes estão muito mais internas, e as conduzem cada vez mais em sua caminhada.

Nesse primeiro show da jornada, Gali (violão, viola caipira e voz) veio acompanhada de Erica Silva (baixo), Theo Charbel (guitarra e backing vocal), Bia Cervellini (violino e teclado) e Larissa Conforto (bateria e SPDx). Juntas, trouxeram moda de viola, roda caipira, “música de fazenda” e rock. “Foi surtante estrear no Psicodália. Psicodália tem tudo a ver com Gali: é fazenda, é roots. Quando vim para o festival no ano passado, como jornalista, lembro-me de ter falado: ‘meu sonho é tocar aqui’. Estamos tocando um ano depois, com banda completa”, explica, emocionada.



AS IYAGBÁS

As Iyagbás Psicodália - Foto Mariana Florêncio (8).jpg

Quarteto de Paraty (RJ) que celebra as raízes dos ancestrais brasileiros, misturando tradições africanas com a cultura popular brasileira. Às 11h15 do sábado de carnaval, colocaram todo mundo para cantar e dançar no ensolarada Palco do Sol. Música e show excelentes para acordar despertar o dia.



HORROROSAS DESPREZÍVEIS

Horrorosas Desprezíveis - Foto GilOliveira.jpg


O trio curitibano Horrorosas Desprezíveis, formado por Amira Massabki (compositora e guitarrista), Jo Mistinguett (sonoplasta e baixista) e Patricia Cipriano (atriz e vocal) pode ser definido como “palhaças sapatômicas”, como bem definiu Luiz Gabriel Lopes, artista mineiro que se apresentou no mesmo Palco do Lago. Punks teatrais, com uma impressionante presença de palco e humor afiado e irônico, as Horrorosas entoaram o canto “Eu vim do futuro e lá só tem sapatão”, que seria ouvido diversas vezes no festival dali pra frente.

CORTE (ALZIRA ESPÍNDOLA)

Corte (Alzira Espíndola) Psicodália - Foto André Donadio (6).jpg

Junto de Marcelo Dworecki (baixo e guitarra), Nandinho Thomaz (batera), Cuca Ferreira (sax barítono e flauta) e Daniel Gralha (trompe e flugel), Alzira Espíndola forma o projeto Corte. Posso dizer, com certeza, que foi um dos melhores shows que assisti neste ano.

Às 16h de domingo de Carnaval, no Palco do Sol, foi a vez da artista sul mato-grossense de 61 anos brilhar. Inovando desde os tempos de parceria com Itamar Assumpção, Alzira deu aula e brindou ao festival.

Quando alguém perguntou a ela se queria que segurasse o copo, enquanto conversávamos, de pronto respondeu: “Não, eu bebo, estou vivendo”. “Estou sentindo essa receptividade (do público) e essa coisa atemporal. Aqui as pessoas não estão ligadas nas redes, isso faz muita diferença. As pessoas aqui são todas sensíveis, são todas artistas e interessadas em coisas novas. Senti que a apresentação do Corte passou uma coisa nova para as pessoas. Acho que fomos muito bem compreendidos e respeitados. É isso que a gente quer fazer, ver essas músicas não conhecidas, músicas que não são padrões, nem de MPB, nem de nostalgia, nem de porra nenhuma, e as pessoas curtindo. Me interessou desde sempre essa minoria, e ver essa minoria aumentar é uma grande vitória. O Psicodália é uma espécie de troféu para essa vitória”, disse Alzira.


SOFIA VIOLA

Sofia Viola Psicodália - Foto André Donadio (5).jpg

Argentina, que se proclama latino-americana, Sofia Viola subiu ao Palco do Sol sozinha, empunhando apenas sua guitarra e seu charango. Foi um show à parte. “Eu sou latino-americana da América do Sul, mas, hoje em dia, com os problemas de fronteiras, problemas políticos, diferenças sociais, essa situação delicada, não me incomoda ser argentina, chilena, mexicana ou outra nacionalidade, me sinto parte deste continente”, relatou Sofia, depois de um show forte e político.

Ela não só representou os povos latino-americanos, muito lembrados durante todo festival, mas também representou a mulher, com músicas que falam diretamente do poder feminino, de assédios, menstruação e outros temas relevantes, muitas vezes tabus. “O retrocesso é mundial, não só na América Latina. A música e a arte vem exatamente para mostrar que não há sexo, não há cor, não há religião, não há raça. Eu acredito que no futuro não haverá nem homem nem mulher nem azul nem rosa (direto para a Damares), será tudo uma centrífuga multicolor. Me anima muito ver as mulheres com peitos de fora e todos se vestindo da maneira que querem, sem se importar com o que é imposto lá fora, e aceitando as diferenças de cores e corpos”, pontuou Sofia.


Confira a cobertura de todo festival Psicodália no vídeo abaixo: