Música e política: artistas brasileiros que batiam de frente com o status quo

Por Elton Telles

Estamos a poucos dias de escolher nas urnas os próximos representantes do povo brasileiro. No dia 7 de outubro – ou no dia 28 do mesmo mês, caso houver 2º turno – vamos conhecer quem assume as cadeiras do governo nos próximos quatro anos.

Atualmente, o nosso país está em ebulição com a polarização radical entre eleitores, rasgando provocações de todos os lados, daqui e de acolá. Esse texto não é pra falar sobre isso porque não convém: cada um tem o seu direito ao voto e esperamos que a escolha dos candidatos seja feita de forma consciente e responsável. O que vamos abordar aqui é que essa divisão ideológica sempre existiu no nosso país, e no meio deste turbilhão de ideais, surgiram vários movimentos culturais para darem o seu parecer; há tanto os artistas favoráveis quanto os que fundaram movimentos de oposição/resistência, e são a estes últimos que esta postagem dedica os próximos parágrafos.

TROPICALISMO

O Movimento Tropicalista foi bem curto. Durou somente dois anos, no final da década de 1960, o suficiente para revolucionar o cenário musical brasileiro com letras carregadas de crítica, doses de experimentalismo, estética arrojada e psicodelia. Foi um enorme passo da cultura musical no país, que estava cada vez mais fincando os pés na musicalidade tradicional pós-Bossa Nova. O Tropicalismo foi irreverente, transformou e moldou o gosto do brasileiro trazendo um repertório ousado que misturava samba com guitarra elétrica, influências do ritmo baiano + bolero e tinha um aspecto conceitual, vanguardista.

Mas e aí, o que isso tem a ver com a política? As composições impregnadas de alegorias e metáforas ao status quo, dando voz ressonante contra a desigualdade social não caíram bem aos ouvidos dos governantes, uma vez que o Brasil já estava consumido pelo golpe da Ditadura Militar. A Tropicália veio como um movimento de ruptura que pretendia entender a cultura de massa e devolver a ela um espectro abrangente de autocompreensão da moral, comportamento, sexo e do próprio corpo. O Tropicalismo teve fim com a prisão de Caetano Veloso e Gilberto Gil, em dezembro de 1968. Outros artistas que faziam parte eram Tom Zé, Gal Costa, Torquato Neto e a banda Os Mutantes.

Parênteses aqui.

(Chico Buarque não é um integrante oficial da Tropicália, mas é contemporâneo ao grupo e merece destaque pelas suas composições ambíguas e geniais, algumas delas censuradas pela ditadura. As que os militares conseguiam entender, no caso).

PUNK ROCK 70/80

Tal qual o Tropicalismo, a cena punk no Brasil eclodiu em pleno período da Ditadura Militar. O grito era pela liberdade de expressão e contrário a qualquer tipo de repressão por parte dos militares. É bem possível detectar a influência musical do punk britânico no nosso som, mas por aqui, as bandas que representavam o punk não reproduziam discurso gringo, não, eles tinham também pelo o que lutar. Expoentes como o Resto de Nada ou o Aborto Elétrico – primeira incursão musical de Renato Russo – vociferavam sobre as condições insalubres que se encontrava o país, desde a falta de emprego até controle rígido do Estado. Aliado à música, eram criados e distribuídos nos grandes centros os fanzines, publicação independente para disseminação de idéias próximas ao Anarquismo. Outras bandas que enriqueceram o cenário punk nacional foram Plebe Rude, Cólera, Garotos Podres, Inocentes e Ratos de Porão.