O cinema “novo” e implacável de Nelson Pereira dos Santos

Por Elton Telles

É difícil enumerar os cineastas mais importantes que o Brasil tem ou já teve. A começar por uma considerável parcela deles serem “autores de uma obra só”, como Mário Peixoto (“Limite”, 1931), Anselmo Duarte (“O Pagador de Promessas”, 1962) e Suzana Amaral (“A Hora da Estrela”, 1985). Outra questão é que cada lista não é absoluta e iria invariavelmente trombar na barreira arbitrária da opinião pessoal. Mas sério, uma coisa é fato: qualquer relação reunindo os maiores nomes do cinema brasileiro que não conste Nelson Pereira dos Santos é golpe. Isso nem está aberto para discussão.

Temos Glauber Rocha, temos Eduardo Coutinho, temos Carlos Reichenbach e Andrea Tonacci, e temos Nelson Pereira dos Santos com meia dúzia, pelo menos, de obras-primas revolucionárias da nossa cinematografia.

Nelson era paulistano, formado em Direito pela USP e iniciou sua carreira no cinema na metade dos anos 50 com “Rio, 40 Graus”, em que mostra o cotidiano de meninos da favela, muito antes de Babenco chegar com “Pixote, a Lei do Mais Fraco” (1981) ou Fernando Meirelles ganhar notoriedade com “Cidade de Deus” (2002). Nelson Pereira dos Santos foi um precursor em observar o Brasil e transpor a realidade que via para as telonas, um cineasta que cedia espaço em suas produções para os grupos excluídos da nossa sociedade e um dos nomes mais importantes do movimento Cinema Novo.

Aos 89 anos, Nelson Pereira dos Santos nos deixou. E junto com o espaço vazio, deixou um baita legado para o patrimônio cultural do nosso país. Abaixo, alguns filmes importantes com breve comentário. Outros títulos de sua autoria que merecem menção são “Rio, Zona Norte” (1957), “Mandacaru Vermelho” (1961) e “Memórias do Cárcere” (1984).

Rio, 40 Graus (1955)

Podemos considerar “Rio, 40 Graus” um dos pontapés iniciais do Cinema Novo, movimento cinematográfico semelhante ao Neorrealismo Italiano, que pretendia sair às ruas e mostrar a realidade sem maquiagem. Foi a estreia de Nelson no cinema e o primeiro de seus vários filmes que seriam censurados pelo governo. Aqui, foi barrado com o pretexto de que a cidade nunca chegou a atingir uma temperatura tão alta. E a licença poética, fica aonde? Galera burra da porra. “Rio, 40 Graus” tem uma qualidade bem duvidosa disponível no Youtube. Para quem quiser arriscar, só dar o play:


Vidas Secas (1963)

Outra distinção que marcou a carreira de Nelson foi a “colaboração” com o escritor alagoano Graciliano Ramos, de quem adaptou para as telonas os romances “Memórias do Cárcere” e “Vidas Secas”, talvez a sua grande obra-prima. Bem como o livro, a trama relata uma família de retirantes, pressionada pela seca, atravessando o sertão em busca de meios para sobreviver. É triste, é emocionante, é das coisas mais belas que um diretor brasileiro já registrou. Nessa época, o Brasil era referência de produção audiovisual no mundo a ponto de “Vidas Secas” estar em competição no badalado Festival de Cannes daquele ano.


Como Era Gostoso o Meu Francês (1971)

Numa época em que a infame Pornochanchada arrastava multidões para as salas de cinema, Nelson lança esse filme político até a medula e com um título bastante irônico e ambíguo pra dar aquela “alfinetada”. “Não julga a capa pelo livro”, já dizia alguns, então não julgue o filme pelo seu nome. Aparentemente, parece um estrangeiro no Brasil que é “assediado” pelas mulheres, mas na verdade, o roteiro de “Como Era Gostoso o Meu Francês” é ambientado no Brasil colonial, em 1954, e mostra um aventureiro francês que é feito prisioneiro dos Tupinambás. Segundo a cultura indígena, era preciso devorar o inimigo para adquirir todos os seus poderes. O “gostoso” do título não diz respeito a atributos físicos, e sim ao canibalismo. Hahaha! Preciso nem dizer que o filme também foi censurado, né?

As últimas contribuições para o cinema de Nelson Pereira dos Santos foram dois documentários sobre o cantor e compositor Tom Jobim. Nada mais justo finalizar essa singela homenagem do Rock. com uma canção de Jobim a um dos caras que mais fez pelo cinema brasileiro.