O punk Odair José

Tive a oportunidade e a honra de conversar com Odair José em 2017, quando ele viajava o país com o show de “Gatos e Ratos” (2016). Quando fechamos a data e o horário da entrevista, uma frase da canção “É Assim”, de 1977, não saía da minha cabeça: “a maior loucura é o estado de lucidez”. Nesse ponto, Odair sempre foi muito louco.

Odair José - Foto Vinicius Denadai (2).jpg

E assim, lúcido e com simplicidade, falando sobre pílula anticoncepcional, questionando devidamente alguns dogmas da igreja católica, cantando sobre prostitutas, empregadas domésticas e a falta de direitos que a profissão sempre enfrentou, Odair foi um dos músicos mais censurados durante a Ditadura Militar. Período que ele repudia veementemente até hoje, ao contrário de muitos insanos do cenário musical. Ele chegou, inclusive, a ser excomungado pela igreja.

Inquieto, apontava e continua apontando a hipocrisia do povo brasileiro. Muito mais punk que Dead Kennedys e Francisco, El Hombre (desculpa o exemplo, mas eles se dizem “punk-rock” e “eletro-punk”), Odair José chega ao 37º álbum, desobedecendo a falsa moral e fazendo um convite a imoralidade. Esse é o “Hibernar na Casa das Moças Ouvindo Rádio”, lançado no último dia 26 de abril, pela Monstros Discos. Como ele mesmo disse no pré-lançamento, “as informações vêm da rua”. Simples assim.

Para resumir, esse é o álbum necessário de 2019, lançado apenas no fim de abril, por um artista de 70 anos, enquanto os jovens “punks” repetem incansavelmente “o chão tá pegando fogo, pegando fogo, pegando fogo”.

O blues, o rock e a psicodelia são o que regem a hibernação de Odair. As três primeiras músicas, que, juntas, dão nome ao álbum, carregam o blues, às vezes mais pesado e clássico, outras vezes mais calmo e intenso. Nessas primeiras faixas, o compositor goiano faz uma crítica ao momento atual da política e da sociedade brasileira, dizendo que “é pão e circo com marmelada”. Por isso a hibernação, enquanto a cena não muda.

E por que não hibernar “Na Casa das Moças”? Lá, “solidão e tristeza ficam do lado de fora / e o amor, com certeza, pra começar não tem hora”. Na terceira faixa, uma curiosidade sobre a ode ao rádio feita por Odair, algo que ele contou também no pré-lançamento. Além da gratidão pela carreira praticamente feita nas ondas do rádio, “rádio” é anagrama de “Odair”. Ou seja, as duas palavras são escritas com as mesmas letras.

Após falar da ilusão do rapaz caipira na cidade grande, o músico se joga na psicodelia com Assucena Assucena e Raquel Virgínia, do grupo As Bahias e a Cozinha Mineira, em “Chumbo Grosso”. Uma crítica ferrenha e direta ao desejo de Bolsonaro de facilitar o posse de armas. Exatamente por isso as vozes potentes e a alegria das duas cantoras trans não foram os únicos motivos do convite para somar com Odair na canção. Afinal, o Brasil lidera o ranking mundial de assassinatos de transexuais. Ninguém melhor que elas para peitarem a ideia insana dos bozos e falarem sobre o assunto.

Outro convidado foi Jorge Du Peixe, da Nação Zumbi. Para Odair, ele é um bom personagem para cantar o “Imigrante Mochileiro”. Cidadão ganhando a vida na maior cidade brasileira, e percorrendo o mundo, misturando culturas e juntando conteúdo para a bagagem.

Antes de pregar a liberdade, o disco ainda reflete sobre fetiches, gang bang e a hipocrisia que cercam os temas, colocando o dedo na ferida do “cidadão de bem”. Aquele que prega a família e a tradição, mas que em importantes reuniões e viagens de trabalho arranca o terno e cai na famosa suruba – uma boa forma de explicar, resumidamente, o que seria o gang bang.

É exatamente na única balada do disco que Odair canta a “Liberdade”. “Pode romance, vale amizade / Mistura de raças, credos e cores / Hoje tudo está liberado em nome do amor.”

A hibernação, de início, parece uma fuga, apenas esperando o temporal passar. Nas próximas dez faixas, Odair mostra exatamente o contrário. Mesmo hibernado, continua trazendo as informações das ruas, sem barreiras, sem hipocrisias, com muita loucura e lucidez, colocando sempre o dedo na ferida da sociedade. Tudo que o incomoda, que o faz pensar e o tira do lugar, é colocado em suas obras cada vez com mais perfeição.





Rafael DonadioComment