Oscar 2018: o Rock viu e comenta todos os filmes indicados

Desde que a Academia de Hollywood ampliou a categoria principal para até 10 filmes indicados, esta é uma das seleções mais interessantes da premiação.

Neste ano, o Oscar chega à sua 90ª edição e conquista mais alguns momentos históricos, como a primeira mulher na categoria Melhor Fotografia (Rachel Morrison pelo ótimo filme “Mudbound – Lágrimas sobre o Mississippi”), a quinta cineasta indicada na categoria Melhor Direção (Greta Gerwig), fazendo companhia ao sexto diretor negro indicado (Jordan Peele), defendendo o terror satírico “Corra!”, entre outras distinções.

Abaixo, o Rock comenta sobre cada um dos 9 filmes indicados em Melhor Filme.

Corra!

É muito interessante o Oscar, premiação tão careta e quase sempre tradicionalista, abraçar um filme de gênero. E quando me refiro a “filme de gênero” falo desses títulos que a gente pode categorizar com um gênero específico e geralmente tem apelo comercial . “Corra!” foi lançado no comecinho do ano passado, custou 4,5 milhões de dólares e arrecadou mais de 150 milhões. Fora isso, é um terror mesclado com sátira social e que dá uma bugada na cabeça dos brancos conservadores – maior parcela dos votantes da Academia. Quer coisa mais anti-Oscar do que isso? Acho que a indicação para esse excelente filme já é uma vitória.

 

O Destino de uma Nação

Esse aqui entra na cota dos “filmes chatos”. É o Winston Churchill gritando e fazendo cara de confuso pra lá e pra cá. “O Destino de uma Nação” tem seus méritos, principalmente técnicos, mas a despeito da questão das estratégias na guerra, o roteiro é quase sempre frágil no desenvolvimento da história, é engasgado, dá um passo pra frente e três pra trás, aí fica muito enfadonho. No mais, Gary Oldman está excepcional e irreconhecível como o ex-Primeiro-Ministro e já deve estar com o discurso de vitória pronto no seu smoking.

 

Dunkirk

Se não tem filme de guerra, não tem Oscar. “Dunkirk”, como o título sugere, narra com bastante precisão dos fatos a evasão dos soldados britânicos da ilha de Dunkirk durante a Segunda Guerra Mundial. É bom, filmado com muito esmero pelo Christopher Nolan, que se apropria de muitas referências do cinema mudo para compor os planos. O som é bem trabalhado, a trilha sonora é inquietante e os atributos técnicos se destacam. É uma baita experiência na telona. Em resumo, é um prólogo de “O Soldado do Resgate Ryan” que dura 2 horas.

 

A Forma da Água

Favorito na categoria, “A Forma da Água” é uma fábula que mistura romance e fantasia. É ambientado na Guerra Fria e conta com bastante delicadeza a relação afetiva entre uma mulher muda que trabalha como faxineira em um laboratório e uma criatura metade homem, metade peixe que foi capturada no Rio Amazônia. “A Forma da Água” é assinado pelo mexicano Guillermo del Toro, e é possível identificar suas marcas registradas no filme, além de referências claras a outras produções, como o clássico do terror B “O Monstro da Lagoa Negra” (1954). O Oscar estará em boas mãos.

 

Lady Bird

Sabem aqueles filmes geracionais sobre amadurecimento que surgem de vez em quando e fazem um registro de uma época? Tipo “Clube dos Cinco” (1985), “Conta Comigo” (1986) e “Kids” (1995)? “Lady Bird” pode ser facilmente adicionado nesta lista. A trama acompanha uma garota no terceirão do Ensino Médio que quer ir embora da cidade pequena onde mora para abrir a mente e expandir seus horizontes em grandes centros, tentar ser alguém importante. A diretora Greta Gerwig faz esse retrato com muita maestria e , seja como for, o espectador vai se identificar de alguma forma com Lady Bird. É um filme mágico.

 

Me Chame pelo Seu Nome

“Me Chame pelo Seu Nome” é um dos filmes mais encantadores sobre o primeiro amor. O roteiro do lendário James Ivory é ambientado no verão de 1983 no norte da Itália, e coloca no mesmo quadrado Elio, um adolescente de 17 anos, e Oliver, um rapaz mais velho que está ajudando o pai do garoto em uma pesquisa. Os dois começam a se aproximar e dali brota um inesperado romance. O tato do diretor Luca Guadagnino para desenvolver essa história, atento aos detalhes e às fases do encantamento, é crucial para o sucesso e sensualidade do filme. Além disso, vale mencionar o ótimo desempenho do elenco, com holofotes para o promissor Timothée Chalamet.

 

The Post – A Guerra Secreta

O Steven Spielberg é bem bregão, a gente sabe, e nossas mães adoram. “The Post” não é tão diferente, mas sabe aquela caretice boa? Aquela cafonice do bem? Pois então, o cara sabe fazer. “The Post” é sobre a publicação de documentos sigilosos encomendados pela Casa Branca sobre a participação do país na falida e sanguinária Guerra do Vietnã. Meryl Streep e Tom Hanks encabeçam o elenco e interpretam jornalistas do The Washington Post que tem esses arquivos nas mãos e cogitam torna-los públicos. Mas com essa decisão automaticamente declararam guerra com o presidente Nixon. O filme tem ritmo, é bom, mas peca pelas obviedades. Mais uma vez, sua mãe vai adorar.

 

Trama Fantasma

Aqui está o filme mais charmoso da seleção. “Trama Fantasma” conta o romance estranho entre um figurinista ranzinza e sua musa, uma mulher humilde e com temperamento forte. Do lado da razão, está Daniel Day-Lewis em mais um performance espetacular, o cara é um grande ator e isso nem está aberto a discussão. Fazendo o equilíbrio do outro lado, o emocional, está a protagonista vivida pela desconhecida Vicky Krieps, que em momento algum se deixa intimidar e também toma conta da cena quando tem oportunidade. A química entre os dois sai faísca e o diretor Paul Thomas Anderson só tá ali atrás adicionando toques de elegância. Você sai de “Trama Fantasma” flutuando tamanha a beleza!

 

Três Anúncios para um Crime

Esse é porrada. Uma mãe indignada com a passividade da polícia local distribui 3 outdoors em uma rodovia perguntando o motivo de não terem ainda capturado o homem que estuprou e matou sua filha. “Três Anúncios para um Crime” começa muito, muito bem, mas depois degringola lá pelas tantas, o filme fica meio bagunçado e o roteiro inicialmente instigante vira meio pastiche. O enredo é bom, o roteiro é mediano, não acompanha. Entretanto, não tem o que reclamar dos atores, a começar por um Frances McDormand sangue nos zóio, boca suja, sensacional como a mulher que busca justiça, e merecem créditos os policiais vividos por Woody Harrelson e Sam Rockwell, candidatos na categoria Melhor Ator Coadjuvante no Oscar.