Carnaval também é rock, pop e música popular brasileira

Carnaval. Festa da carne e da liberdade. Popularmente conhecida como o start do Brasil: “O ano só começa depois do Carnaval”. O ano só começa depois de um mar de gente descer “frevando” as ladeiras de Olinda. Só começa depois dos trios elétricos percorrerem as avenidas de Salvador ou das escolas de samba desfilarem no Sambódromo de São Paulo e na Marquês de Sapucaí, no Rio de Janeiro. O ano também não daria o primeiro passo sem o desbunde da folia embalada pelo carimbó em Belém do Pará.

Mas há quem prefira iniciar esse ciclo com um pouco mais de tranquilidade, porém, sem deixar a diversão, a festa e a música de lado. Este é o meu caso, há mais de 12 anos. Milhares de pessoas optam por curtir cinco dias de rock, pop e música popular brasileira em festivais como Rec-Beat, no Cais da Alfândega, em Recife (PE); Psycho Carnival, no Jokers Pub, em Curitiba (PR), e Festival Psicodália, na Fazenda Evaristo, em Rio Negrinho (SC). Só para citar alguns.

Pela nona vez, é no Psicodália onde vou passar esses cinco dias de Carnaval. Vou comemorar os 18 anos de festival ao lado de cerca de seis mil psicodálicos, numa “cidade” montada com todo carinho e da melhor forma possível pelas mais de 1500 pessoas que ajudam a organizar esses belos dias de harmonia.

Ali, a experiência psicodá(é)lica vai muito além de folia e diversão. Ali, habitantes do Psicodália vivem esse feriado intensamente, de peito e mente abertos, com todos os sinônimos possíveis de amar, e fazem daquela cidade um lugar de resistência, mostrando que é possível conviver em harmonia, com trocas, abraços, beijos e puro respeito pelas pessoas e o meio ambiente.

Os acampamentos se dividem em quatro “bairros” diferentes: Mutantes, Casa das Máquinas, Secos & Molhados e Tutti Frutti. Além disso, a organização oferece banheiros, chuveiros para banho, mercearia, praça de alimentação, bares, lojas, cozinha comunitária – que funciona 24h por dia – ambulatório, segurança, teatro, cinema, oficinas, recreação infantil, recreação adulta, tirolesa, materdália e as infindáveis jams que rolam por todos os cantos e “ruas”.

Vale ressaltar que tudo isso é feito de forma completamente independente. Não se vê uma publicidade de marcas de cerveja, produtos de beleza, operadoras de celular ou o quer que seja. Se vende todo tipo de bebida, de várias marcas, e os cozinheiros merecem um eterno agradecimento pelo preparo dos hambúrgueres, pizzas, macarrão, salgados, café, e comida em geral. Sempre com opções para vegetarianos e veganos.

E, claro, o mais importante, os shows! Distribuídos em quatro palcos – Palco do Lago, Palco do Sol, Palco Lunar e Palco dos Guerreiros –, as apresentações acontecem, diariamente, das 10h até às 4h30 ou mais. Quem ainda estiver no pique, o Saloon – restaurante que se transforma em festa depois da janta – é a pedida para amanhecer o dia se divertindo.

Já passaram pelos palcos do festival nomes de extrema importância para o cenário da música nacional e internacional: Ian Anderson tocando o melhor do Jethro Tull, John Kay e Steppenwolf, Moraes Moreira, Alceu Valença, Arnaldo Baptista, Os Mutantes, Elza Soares, Tom Zé, Paulinho Boca, Naná Vasconcelos, Nação Zumbi, Ave Sangria, Orquestra Contemporânea de Olinda, O Terno etc. A lista é realmente enorme!

Este ano, na 22ª edição em 18 anos de Psicodália, o line-up não deixou a desejar, nem um pouco. Seguem alguns nomes que estarão por lá:


Abayomi Afrobeat Orquestra

Neste novo ciclo, a sonoridade da Abayomy se volta ainda mais para a música brasileira, explorando ritmos do Norte e Nordeste do país. Expande as experimentações dentro da música africana, e aprofunda a crítica social sem perder a verve dançante e divertida, que são características importantes do som da banda. “Temos que nos divertir e entreter. Acho que de alguma forma nos dedicar a isso vai ser a melhor resposta contra aqueles que nos entristecem. Estamos buscando explorar melhor a poesia dentro da mensagem e musicalmente queremos dar um passo adiante sempre. Já temos alguns esboços de músicas e temas já bem encaminhados e esperamos em breve mostrar algumas delas para o público”

Mulamba

Mulamba é uma banda curitibana que pulsa força e poesia, unindo influências que vão do rock à música erudita. Mulheres com vozes dissonantes, que saem das entranhas e têm muito a dizer, elas representam um grito, um suspiro de encantamento, um furacão. As integrantes reforçam o protagonismo feminino na música nacional e se apresentam com seu primeiro disco.


Cordel do Fogo Encantado

A banda pernambucana se apresenta com o disco recém lançado, Viagem ao Coração do Sol. O quarto trabalho autoral da banda traz canções que ficaram guardadas durante a pausa e composições nascidas no reencontro de Lirinha (voz e pandeiro), Clayton Barros (violão e voz), Emerson Calado (percussão e voz), Nego Henrique (percussão e voz) e Rafa Almeida (percussão e voz). Diante da grande espera pela volta do Cordel, os cinco integrantes não veem a hora de encontrar o público para apresentar as novas músicas.


Elza Soares

Dispensa apresentações. É só dar o play.

Vencedora do Grammy Latino, eleito disco do ano (2016) pelo The New York Times, além dos principais prêmios musicais e técnicos de 2015 e 2016, com o álbum “A Mulher do Fim do Mundo” sucesso no mundo, Elza lança turnê “Deus é Mulher”.

Anelis Assumpção

Anelis Assumpção é uma cantora e compositora brasileira que mistura em seu trabalho vocais sensuais a arranjos irreverentes, pitadas de dub, afrobeat e grooves brasileiros. Filha do falecido cantor e compositor Itamar Assumpção, Anelis representa o espírito livre de amarras da vanguarda da música de São Paulo, bem como o toque de originalidade que ela herdou de seu pai. Suas raízes paulistas correm profundas dentro do seu estilo, levando a música pra frente, capturando algo novo, mesmo que ainda mantendo o sabor do vintage/analógico vivo.

Tom Zé

Encerrando um período de efemérides tropicalistas, comemorou com show os 50 anos do disco Grande liquidação. Tom Zé lançou-o em 1968, pouco tempo depois de ter vindo de Salvador para São Paulo, onde vive até hoje. As canções revelam o impacto da grande cidade sobre uma sensibilidade sempre unida a um olhar crítico e humorado. A apresentação é acompanhada por sua banda competente, que acompanha o inesperado que Tom Zé costuma levar para o palco. Os músicos são: Jarbas Mariz: viola 12 cordas, bandolim, percussão e vocal; Daniel Maia, produtor dos discos recentes de Tom Zé, faz guitarra e vocal; Cristina Carneiro: teclado e vocal; Felipe Alves: baixo e vocal; Fábio Alves, bateria. Grande liquidação – 50 anos é o show que o artista apresentará no Festival Psicodália, confirmando como inteligência e alegria convivem em canções que o público ama encontrar/reencontrar. São histórias sempre novas. E nossas.



Xênia França

Após a ótima receptividade do álbum Xenia, que marcou a sua estreia-solo, a cantora e compositora Xenia França roda o país com o show deste trabalho. Logo na abertura, ela dá o tom com a música Pra Que Me Chamas?, na qual faz referência aos seus ancestrais, manifestando que a história dela não começou no seu ano de nascimento, mas muito antes disso. Assim como no disco, a apresentação segue por um caminho poderoso em que traça o empoderamento da cantora e também a tomada de consciência sobre o poder da mulher negra. “Preta Yayá” é exemplo disso, música que homenageia a diáspora negra.


Jorge Mautner

Jorge Mautner é uma das principais influências do grupo Tono e há 5 anos boa parte do grupo vem acompanhando Mautner em suas apresentações. Agora, prestes a lançar seu novo disco, Mautner assume de vez a parceria com o grupo que é responsável pela produção do novo trabalho, trazendo em seu show a presença (já constante) de Bem Gil, Bruno Di Lullo e Rafael Rocha, além de Ana Cláudia Lomelino, a MãeAna. No repertório estarão os clássicos da obra de Mautner, músicas do grupo Tono e, em primeira mão, as canções inéditas do novo álbum de Jorge que se chamará “não há abismo em que o Brasil caiba”, com previsão de lançamento para o primeiro semestre de 2019.


Gali

Gali é o novo nome artístico de Camila Garófalo. Inspirada pela viola caipira, a cantora e compositora resgata suas raízes no interior de São Paulo ao passo em que cria outras possibilidade dentro da nova música brasileira, misturando também o que aprendeu em dez anos radicada na capital paulista. Militante da causa LGBTQAI+, aborda em suas letras a temática da mulher lésbica e de sua desconstrução dentro da questão de identidade de gênero. No Psicodália, com violão, viola caipira e voz, Gali vai apresentar músicas do novo trabalho, ainda a ser lançado, junto com Larissa Conforto (bateria e SPDx), Erica Silva (baixo), Theo Charbel (guitarra e backing vocal) e Desiree Marantes (violino e teclado).


Hermeto Pascoal e Grupo

Este ano, no mesmo dia do aniversário deste que vos fala, 22 de junho, Hermeto faz 83 anos. O alagoano de Lagoa da Canoa salta e dança no palco como se fosse um menino: multi-instrumentista, o mestre toca teclado, piano, flauta-baixo, escaleta, sanfona 8 baixos, porcos, chaleira, berrante e uma infinidade de instrumentos ao lado de seu lendário grupo, formação que mantém a mesma tradição desde os anos 70.


Dona Onete

Diretamente do Pará, a “rainha do carimbo chamegado”, Dona Onete e sua banda lançaram em 2016 o CD “Banzeiro”. A compositora, que tornou-se referência para os jovens músicos do estado, tem em seu repertório canções do álbum “Feitiço Caboclo”, lançado em 2012, como “Proposta indecente”, “Amor brejeiro”, “Poder da sedução”, “Moreno Morenado”, “Feitiço Caboclo” e “Jamburana”. Além de canções do seu segundo álbum, como “É no sabor do beijo”, “Tipití” e “Banzeiro”.


Bike

Há três anos na estrada, a BIKE segue em turnê com seu terceiro álbum, “Their Shamanic Majesties’ Third Request”, mergulhado em um universo exótico e soturno – que vai além das guitarras psicodélicas e os tradicionais vocais reverberados. Nesse momento, a sonoridade psicodélica do grupo se juntam o toque dos tambores, percussão indígena e ao experimentalismo, apontando para mais um caminho musical sereno e maduro.