É possível separar o autor de sua obra?

Hitchcock acusado de abuso sexual, Woody Allen e Roman Polanski apontados como pedófilos, Clint Eastwood e seu racismo velado, Johnny Depp é agressor de mulheres... e olha que estou somente no campo do cinema, se for pra música, acho que não sobra um elemento para contar história (MC Biel pffff). A gente sabe que esses artistas erraram, nem todos foram condenados, mas não deixamos de ver seus filmes. Por quê? Porque eles são foda! Cada pessoa pensa de um jeito: alguns dão de ombros e ignoram as acusações seríssimas as quais esses homens foram submetidos e outros optam por boicotar suas obras, preferem não dar dinheiro a alguém que é/foi escroto. 

E aí, o que fazer? 

Assistir ao próximo filme do Polanski faz com que eu compactue com um cara que abusou sexualmente de uma adolescente e concorde que ele está aí à solta, fazendo filmes, quando deveria estar na prisão? Ver o novo do Clint Eastwood no cinema é o mesmo que dar passe livre para um reacionário que apoia Donald Trump? São diretores geniais, o talento de cada um não está em jogo, estamos falando de postura, comportamento, caráter mesmo... e aí, como fica a sua consciência? Pesada? Levinha? 

Esse assunto bastante controverso voltou à discussão quando o ator e agora diretor Nate Parker lançou o elogiado “O Nascimento de Uma Nação”. A première foi no início do ano, no Festival de Sundance, evento dedicado a produções independentes. O filme ganhou todos os prêmios possíveis, deixou o público em estado de graça, foi comprado pela Fox pela bagatela de 18 milhões de dólares e já despontou como o favorito ao Oscar 2017. 

No entanto, suas chances foram descarga abaixo devido à índole de seu realizador. No final dos anos 1990, quando Parker era universitário, ele e o roteirista de seu filme, Jean Celestin, foram acusados de estuprarem uma estudante no dormitório da faculdade. Rolou o julgamento. Parker saiu ileso, enquanto seu amigo foi preso, mas cumpriu poucos anos atrás as grades. Essa conversa voltou à mídia porque a vítima de Parker e Celestin cometeu suicídio, declarando não aguentar conviver com esse fardo. O que aconteceu? De filme mais esperado do ano, “O Nascimento de Uma Nação” teve sua estreia adiantada, foi um fracasso de bilheteria e nem se fala mais em estatueta dourada para o filme.

Mas aí é que está: o filme é bom! Não é uma maravilha, tem vários cacoetes de cineasta estreante e é bastante pretensioso, mas continua sendo bom, a história é comovente e muito relevante para a luta pelos direitos civis dos negros. Entretanto, se fosse recomendar algo com temática semelhante, indicaria o documentário “A 13ª Emenda”, disponível na Netflix. #dicadobuda

Voltando para a discussão, é basicamente isso. Parker fez algo reprovável e fez um filme importante, acima da média. Há as pessoas que vão assistir mesmo assim, dar o crédito a quem deve e outras que vão preferir não dar audiência para um estuprador. Não há certo e errado nessa questão. É bem difícil separar o homem do artista. Para aqueles que o fazem, sério, é admirável, mas é uma escolha de se privar de ver uma obra-prima – aí me refiro aos cineastas citados no início do texto. Para o que não estão nem aí e assistem mesmo assim, hum, vai lá, boa sessão... mas não ignore por completo. É sempre interessante parar pra conhecer o autor por trás do filme, da música que você está curtindo, do quadro que você está admirando. Isso ajuda na fruição, no desfrutar da obra que você está consumindo, porque se um trabalho acaba em si mesmo, aí vão me desculpar, é pobre e não vale a pena. 

Para esse último grupo, o trailer de “O Nascimento de Uma Nação” segue abaixo. O filme estreia no Brasil no dia 10 de novembro